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Críticas e Aplausos

“Isto não é um diário” é o mundo em que vivemos

Steven Poole afirmou que “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro [“Isto não é um diário”] na Internet, teria sido o melhor blog do mundo.”

Ora na sua obra, Zygmunt Bauman, critica o modelo de socidade atual e os seus valores subjacentes, tendo muitas das vezes como “fonte de inspiração” José Saramago. Inicia o seu livro referenciando o “bug do milénio” que de alguma forma foi um presságio para o século XXI.

Um século rodeado de tecnologia e informação, de inputs constantes, e globalização em expansão, um século igualmente repleto de incertezas e incoerências não só sociais mas também governamentais, em que na ocorrência de um “bug” social, os pedidos de auxílio ao Estado “social” recebiam-nos devolvidos com indicações de “Endereço errado ou Destinatário desconhecido”.

E “bugs” sucessivos têm-se vindo a verificar pela aparente quebra de segurança demonstrada pela existência de pessoas diferentes. Diferentes em étnica, crenças, sexo, idade, origem, religião, hábitos e costumes.

Logo no início da obra, Bauman, refere a tomada de posição de Sarkozy sobre a etnia cigana. Os ciganos eram vistos como um perigo à sociedade, na verdade, em muitos países ainda hoje o são. Porquê? Porque são diferentes, e o que é diferente provoca desconfiança e desconforto, porque tal como o autor refere Maria Serena Natale, se não conhecemos não conseguimos antecipar as suas ações, de modo a evitar possíveis problemas, logo, tornam-se perigosos.

É de notar a afirmação que Bauman faz logo após esta demonstração de tomada de posição de Sarkozi:

“Para lucrar com as novíssimas e maravilhosas armas da guerra declarada à insegurança, é preciso garantir que os odiados ciganos se tornem, e acima de tudo sejam vistos como, uma ameaça suprema à segurança pública…”

E com esta afirmação damos espaço à intensificação da discriminação, já anteriormente sentida, mas hoje massificada, pela globalização, pela Internet, e à “guerra do “lute agora e pague depois””.

As despesas em armamento são cada vez mais dispendiosas, apesar de estarmos numa espécie de Guerra Fria (a história tende a repetir-se como Marx o afirmou), na qual em termos práticos, só são necessárias armas, para garantir que “o inimigo” tenha que investir em novo armamento de modo a ter possibilidade de competir, o que muitas vezes o leva à falência económica, como explica mais à frente.

O consumo é o que tem vindo a garantir, expandir e endividar a economia. Segundo Bauman, apenas o mercado da tecnologia ultrapassou a comercialização de perecíveis, que “hoje ocupam 20% do total de tempo gasto com media”. 

O autor afirma que a Internet potencia uma série de ferramentas para que o futuro se revele como um “faça você mesmo”. Com a Internet veio a globalização mas também a era da informação. Na Internet aprendemos hoje a fazer coisas que há uns anos exigiam muito estudo e investigação, hoje não precisamos de procurar um livro na biblioteca, pesquisamos informação online.

“Quer paz? Prepare-se para a guerra.”

Bauman centra-se também na ideia de “utopia altruísta”, esta que, já tem vindo muitas vezes a delimitar alguns dos rumos da história.  Sempre existiu descriminação, muitas vezes verifica-se a adoção de medidas cruéis, de descentralização de culpas, “para um bem maior”. Aqui os meios justificam sempre os fins, pois ninguém consegue ver outra forma de alcançar o “bem maior”. No entanto, todos os dias damos um Viva! à tolerância e amor ao próximo, tal como nos guia a Bíblia.

Segundo o autor, a política e religião coincidem no seu pano de ação, pretendem exatamente a mesma coisa, que sejam ouvidas e respeitadas pelos demais que as ouvem, a única diferença, é a legitimidade que lhes é conferida.

Legitimidade que qualquer um adquire através das redes sociais. Hoje a companhia humana, o pensamento e reflexão, são substituídos por impulsos descarregados nas redes sociais.

Não são mais que redes, na verdade, mas tal como referido anteriormente movem massas, bem como a maior parte dos seus dias, “Bastam alguns minutos e um punhado de assinaturas para destruir milhares de cérebros e duas vezes mais mãos levaram anos para construir”.

Sim, “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na Internet, teria sido o melhor blog do mundo” porque hoje, ninguém vai à biblioteca procurar um livro.

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Volkswagen: reputação antes e depois da crise

Há nove semanas propus-me apresentar-vos hoje um tema que gerou alguma controvérsia no ano passado: a crise da Volkswagen.

Como já visto anteriormente, logo após a “bomba de CO2 explodir”, a marca passou por uma exposição que acarretou consigo vários problemas, não só com os clientes, mas com todos os seus stakeholders. O seu posicionamento em bolsa por exemplo, sofreu uma queda significativa, 53761 veículos em Portugal foram afetados e os comentários tanto dos clientes como dos consumidores não paravam de se propagar.

A questão que coloco é a seguinte: numa situação de crise como esta, conseguiu a marca adotar uma comunicação adequada, garantindo o mínimo impacto possível na sua reputação?

Sem antes respondê-la, quero apenas enunciar algumas bases que considero essenciais sobre Gestão de Risco e Comunicação de Crise. 

Primeiro ponto: toda e qualquer empresa deve ter um “Plano de Gestão de Crise”. Este deve ser composto por cenários hipotéticos e portanto com perguntas e respostas céleres, claras e tanto quanto possível transparentes que em cenário de risco e/ou crise, “matem a curiosidade”aos stakeholders, e especialmente aos colaboradores, sem esquecer, naturalmente, os media.
Algumas das perguntas fundamentais neste Plano de Crise, tendo em conta a pressão mediática devem ser:

“Como aconteceu?
De quem é a responsabilidade?
Quando tiveram conhecimento da situação?
O que estão a fazer?
Como vão resolver?
Como vão evitar que se repita?
Que custos estão envolvidos?”1
As respostas devem ser claras e com base na verdade. Existe até a regra dos 5 C’s que deve ser tida em conta na elaboração das respostas tipo como:

“Cuidado: “Lamentamos / estamos solidários’’
Compromisso: “estamos a fazer tudo para …”
Consistência: nas mensagens veiculadas
Coerência: uma história, sem contradições
Clareza: sem abertura para outras interpretações”2

Tendo isto como base da análise, o que fez a Volkswagen?

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Arrisco-me a dizer que a Volkswagen fez tudo certo. “Mas porquê? A marca nem sequer respondeu logo.” É certo que não respondeu, no entanto, por vezes é preferível esperar e saber dar a informação correta, em vez de querer responder logo à pressão dos stakeholders, sem ter a noção do que efetivamente se passou.

A Volkswagen manteve uma postura correta no sentido em que, além de ter esperado para dar respostas corretas e concretas, assumiu as suas responsabilidades bem como se predispôs desde logo para que soluções fossem estudadas de modo a remediar o seu erro.

A marca manteve uma comunicação próxima no seu site oficial a nível dos progressos e notícias, sendo que, nos social media, em concreto no Facebook, manteve a comunicação regular sem explicitar avanços no caso do CO2.

“2016 é o desafio da reputação”

Fernando Monteiro, administrador da importadora SIVA

Na apresentação de resultados de 2015 da SIVA, importadora da Volkswagen entre outras marcas, fez esta observação, referindo que no ano 2016 uma das grandes apostas seria a melhoria do serviço ao cliente, com o intuito de voltar a conquistar a confiança.

A verdade, é que não foram precisos mais do que umas semanas apenas, para observarmos a diferenças entre os comentários na página de Facebook da marca.

Apesar de anteriormente à crise, os comentários dos utilizadores na sua maioria serem positivos e relacionados com o que a marca publicava, nos dias imediatamente posteriores ao eclodir da crise, os comentários, como seria de esperar, passavam a não ter que ver em nada como o que era publicado pela marca, apenas acusando a mesma.

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Contudo, não passou mais do que uns dias para que os comentários maioritariamente maus fossem substituídos por palavras de apoio à marca, tendo a própria chegado a agradecer os mesmos:

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O que pretendo concluir com esta análise, é que, apesar da crise, a Volkswagen, obviamente colocou a sua reputação em risco. No entanto, conciliando não só a sua história e presença na vida dos seus clientes bem como com o registo de comunicação utilizado durante e após a crise, a Volkswagen, está num bom caminho para recuperar a confiança de alguns dos clientes que ainda não estão “convencidos”.

É de notar que, sensivelmente um ano depois, as vendas mundiais do grupo Volkswagen cresceram em 7%, pelo que, apesar de tudo, os consumidores ainda são clientes Volkswagen. (Publicado por “Observador” a 25/10/2016)

Além disto, a Volkswagen anunciou, na altura da crise, o reforço na aposta em veículos elétricos (Publicado por “Negócios” a 14/10/2015), nos quais não terão decerto, preocupações com o CO2, obrigando a marca assim a reformular o seu Plano de Gestão de Crise, com hipóteses desta vez relacionadas com os veículos elétricos.

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1 Victorino M, COMUNICAÇÃO DE CRISE Desafios e Oportunidades Disponível em :
http://www.fch.lisboa.ucp.pt [Consultado a 27 de novembro de 2016]

2 Victorino M, COMUNICAÇÃO DE CRISE Desafios e Oportunidades Disponível em :
http://www.fch.lisboa.ucp.pt [Consultado a 27 de novembro de 2016]

“O Novo Espaço Público”

Daniel Innerarity traz-nos a uma reflexão sobre “O Novo Espaço Público” que vivemos, este que tem vindo a sofrer alterações massivas. O que eram a esfera pública e o espaço público antes, não o são hoje, bem como o próprio conceito de público. A política e o seu exercício tem vindo igualmente a modificar-se.

Posto isto, e para não gerar dúvidas, o autor apresenta-nos as definições destes mesmos termos logo no início da sua obra:

  • A esfera pública pressupõe um espaço de discussão dos assuntos que são identificados como problemas de modo a encontrar soluções que ponderem “as aspirações coletivas”;
  • O “público” é quem carateriza esses mesmo problemas (o “interesse geral”);
  •  O espaço público é “onde é encenada a problematização da vida social”, tendo em consideração a vontade e opinião do público.

No fundo, o espaço público é a comunicação utilizada na esfera pública por aqueles que debatem o que é de interesse público, segundo Innerarity.

“a tradicional distinção entre o privado e o público (…) [tornou-se] muito precária”

O autor defende que com a emergência da Internet estes conceitos foram alvos de mudança, tendo, a própria Internet, se tornado num espaço público. Assim sendo é necessário repensar estes mesmos termos.

O que antes era privado tornou-se agora público, o que antes era de interesse comum, agora não o é, e isso veio alterar a própria sociedade, desde a política à comunicação, dificultando cada vez mais a definição do novo espaço público, afirma Daniel Innerarity.

A política é um dos maiores aspetos da vida quotidiana que mais tem vindo a ser alterado, na medida em que, no seu sentido mais literal, a política, deve encarregar-se em dar resposta às necessidades e interesses coletivos.

Que interesses? Pois bem “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.” já dizia Luís Vaz de Camões.

Segundo Innerarity, a política é indissociável do espaço público, pois é nele, e no que é tomado por interesse, que assentam as tomadas de decisão políticas. Como já tenho vindo a referir anteriormente, os interesses públicos eram aquilo que era tomado por interesse pela maioria.

No entanto, com o decorrer da História temos assistido à emergência de minorias, cujos interesses eram anteriormente privados, mas que hoje vêm a público. E a política, como não poderia deixar de o fazer, inicia agora a sua tentativa de corresponder as novos interesses públicos.

O autor considera que movimentos como o Feminismo têm vindo a alterar o rumo da política bem como os seus domínios reivindicando os seus direitos e igualdade.

Com a Internet e os demais meios de comunicação, assistimos a uma globalização que veio, não só proporcionar um novo espaço público mas também a emergência destas mesmas minorias, alterando  não só a política mas a própria cultura.

“Os meios de comunicação constituem uma verdadeira mediação universal, fornecem a matéria da nossa realidade.”

Daniel Innerarity compara os meios de comunicação a um mito, pois seguem sempre a mesma linha de abordagem das notícias, dando ideia de realidades inalcançáveis.

Na verdade, há muito poucas coisas hoje em dia que consigamos experimentar em primeira mão porque alguém já o fez. Anteriormente, já alguém o podia ter feito, no entanto não era mediatizado, o que conferia, na nossa ideia de fazer algo um fator novidade, apesar de não o ser. Hoje isso não é possível, porque tudo existe no Google.

Além da redefinição de interesses, assistimos igualmente a uma redefinição de contextos, assistimos a uma “sociedade multicultural”.

A heterogeneidade é um aspeto fulcral na sociedade que vivemos, o que pressupõe a existência de minorias e por isso:

“É preciso voltar a avaliar as diferenças para avançar na lógica da igualdade.”

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Um mundo sem bússola

Este é o tempo onde o tempo tudo rege. Todos têm pressa, todos têm coisas que fazer. Mais do que isso, todos têm a sua opinião, e, apesar da dita evolução social, nos campos da tolerância e do conhecimento, cada vez mais, estamos menos recetivos. O que é diferente, amedronta pela diferença e o medo do desconhecido.

Hoje, apesar da paz e qualidade de vida (europeia e norte americana essencialmente) adquirida a longo dos séculos através da evolução social, continua a existir a diferença que desregra em vários domínios tudo o que deveria ser coerente entre as várias nações.

“Entrámos no novo século sem bússola.”

Amin Maloouf,

“Um mundo sem regras”é um livro de Amin Maloouf que retrata o desregrar da sociedade apesar de todas as regras que à partida nos permitem viver desse modo, em sociedade, em que o tempo não nos ajuda.

Existem já uma série de estudos ambientais que nos confrontam com o que estamos a fazer ao planeta, e que prevêem que consequências emergirão das nossas ações. Sem nos apercebermos, o desregrar financeiro, geopolítico e étnico está a conduzir-nos a um mundo sem regras, esse que, depois de o deixarmos, ficará completamente irreconhecível. Tudo o que constituía a nossa civilização deixará de existir.

Logo no primeiro capítulo, o autor, afirma que a esperança era um sentimento partilhado por todos após a queda do Muro de Berlim. Acreditava-se que, tal como o Muro de Berlim, as barreiras existentes iriam cair instalando a democracia e uma era próspera. De certa forma foi isso que se sucedeu com o surgimento da União Europeia.

No entanto, indo ao encontro do raciocínio do autor, a Humanidade é mais do que a Europa; o mundo árabo-muçulmano foi tomado em grande parte pelo radicalismo religioso, o que definiu em parte o seu intelecto tornando o seu comportamento muitas vezes “anti-ocidental”. A sua grande questão foi: “como europeizar-se sem se submeterem à hegemonia das potências europeias que dominavam os seus países (…) e que controlavam os seus recursos.”

Apesar dos avanços tecnológicos vivemos hoje numa sociedade de afastamento, entre pessoas que fazem parte das nações o que pressupõe um afastamento delas. Todas as nações dizem querer cooperar entre si, mas na verdade não é o que se tem verificado.

Mais uma vez, as pessoas que fazem parte das nações têm interesses, que se sobrepõem ao desejo de cooperação, e que transportam essas mesmas nações para um mundo de guerra. Mesmo que esta seja somente de interesses, direta ou indiretamente, reflete-se na sociedade e em todas as suas componentes: financeira, geopolítica, étnica e ambiental.

A cultura, à semelhança de obras lidas anteriormente e exploradas aqui no blog, é mais uma vez um fator decisivo para a mudança de comportamentos, mas acima de tudo, para a alteração de atitudes. E, não sendo tarde demais, deveria existir uma viragem na sociedade atual, uma implementação de regras. Mas como? E quais?

Maloouf, coloca a questão no início do seu livro mas que utilizo em questão de conclusão: Deve a União Europeia tornar-se nos novos Estados Unidos [da Europa]?

Hoje caminhamos para o abismo e sem regras dificilmente o ultrapassaremos.

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Os ideais esquecidos

O prefácio de “Nobreza de Espírito – Um Ideal Esquecido”, é escrito por um escritor já conhecido, George Steiner, que inicia com as interpretações do autor, Rob Riemen, sobre o humanismo e o conceito de tempo.

Ao longo da sua obra, Riemen, conta histórias. Histórias essas revelam-nos diálogos e apresentam-nos as principais questões acerca da  “Nobreza de Espírito.” No seu livro, o autor começa por afirmar que “os mais importantes acontecimentos da nossa vida – acontecem-nos”, e são imprevisíveis. Foram esses acontecimentos, que sem saber que eram importantes, mudaram a vida do autor, e tornaram possível o seu livro. Nomes como Elisabeth Mann Borgese, Thomas Man, Joe, Sócrates, influenciam o pensamento e os ideais deste autor, e estão presentes, em toda a sua obra.

O que é a Nobreza de Espírito?

A nobreza de espírito é “a realização da verdadeira liberdade”. No entanto, para a sua realização não pode existir democracia. Whitman, acrescenta, na sua obra, que é como que um “culto da alma humana”, pois tem como base valores como o bem, o amor, a beleza e a liberdade, não sendo estes valores alcançáveis através da política mas sim da literatura.

Espinosa é também um filósofo cujo pensamento é explorado e partilhado por Riemen. Entre as ideias abordadas, a mente surge como um dom e um veículo para a vida plena que se dedica ao pensamento, amor e sabedoria. Além desta ideia, Riemen foca também a noção da relação entre liberdade e verdade. Uma pessoa só é realmente livre se souber e viver na verdade, colocando de lado o poder e o dinheiro, que são identificados por Espinosa como restrições à liberdade.

O conceito de tempo de Mann é também explorado por Rob Riemen. Este, identifica o tempo como um espaço, espaço esse dedicado à luta pela mudança entre o que o indivíduo é para aquilo que deveria ser. Todas as questões sobre a humanidade, os valores e a arte na sociedade estão interligadas.

A Primeira Guerra Mundial por exemplo, foi mais que um conflito de poder, foi um conflito de ideias, e o mesmo se passou com o Nazismo. Hoje o que conta são as ideias, não o pensamento e quem pensou por detrás delas.

Para Mann, o pensamento político não pode resolver “as questões da vida”, pois para as quais, o indivíduo só encontra resposta através da religião, arte e ética, provenientes de uma educação liberal. Hoje a moral e a arte encontram-se lado a lado, subordinadas às ideologias.

O totalitarismo é uma forma de poder que só existe com recurso à violência e à mentira. A verdade é revelada pela cultura, mas se esta não existir, não há forma de mostrar a verdade a não ser nas reflexões do indivíduo, que devem ser tornadas cultura, através da linguagem.

Riemen mostra-nos através de Sócrates que o Estado deve garantir a dignidade humana e manter a justiça. No entanto para que isso aconteça, é necessário que os indivíduos tenham a cultura de pensar para poderem, deliberadamente, escolher quem lhes “assegurará”os seus direitos e justiça.

Hoje tudo é pré-fabricado, hoje todos temos pressa, pensamos sobre tudo, mas não pensamos sobre a nossa essência, e acabamos sem nobreza de espírito.

Rob Riemen, recorre ao exemplo do World Trade Center, ataque em 11 de setembro de 2001, como sinal de que a dignidade humana está ameaçada. A nobreza de espírito tem sido um tabu, tornando-se infelizmente n”um ideal esquecido”.

“O homem nasceu bárbaro; adquirindo cultura é salvo de se tornar um bruto. Portanto, a cultura faz o homem, e quanto maior for a cultura maior será o indivíduo.”

(Gracián em “Nobreza de Espírito – Um Ideal esquecido” de Rob Riemen.)

 

 

(Re)Pensar as empresas

“Se a empresa quer reencontrar a sua dimensão cidadã, ela deve desenvolver nela própria uma cultura política no sentido pleno do termo. Deve inserir a sua ação na vida da cidade e participar nos debates sobre o Bem comum e sobre as suas orientações para o futuro.” (Philipe de Woot)

Philipe de Woot, mostra-nos que, no último século, a realidade mudou, as empresas também. As pessoas estão agora circundadas pela Internet, o que coloca infinitos desafios às organizações e empresários.

Hoje em dia, não basta investir financeiramente para ser bem sucedido, é preciso dar mais, muito mais, é preciso “repensar as empresas”. Este “repensar”, implica sobretudo, “reencontrar a sua dimensão cidadã”. É necessário considerar que o que comercializamos é para pessoas, e que em simultâneo é comercializado por pessoas.

Na sua obra “Rethinking the Enterprise”, o autor revela que com os avanços científico-tecnológicos, é cada vez mais desafiante satisfazer o cliente, o que obriga, a reajustamentos frequentes para a sustentabilidade empresarial: se o cliente está insatisfeito, procura outro serviço. O mercado quotidiano permite isso, pelo que , além de manter a qualidade, é necessário desenvolver e manter relações com todos os stakeholders, especialmente, os clientes. E esta relação hoje, não é só dentro do escritório, é em todo o lado, através da Internet.

Woot considera que a tecnologia deu a possibilidade da empresa fazer parte e integrar a sociedade, no entanto, o empresário tem de ter em linha de conta que outras empresas têm também esta poderosa “arma”.

Por isso, é necessário repensar também a dimensão ética da empresa, e desenvolver a sua própria cultura. É fulcral inovar sim, no entanto, hoje o cliente preocupa-se além da qualidade e do preço do produto mas com as condições e os processos que o fizeram chegar ao mercado. E aqui entram questões relacionadas com a Responsabilidade Social.

 

A Responsabilidade Social, não tem que ver, só e apenas com a sustentabilidade da empresa, tem que ver com o “Engagement”. O envolvimento (engagement) não se prende pura e simplesmente com o cliente, mas com todos os stakeholders, que vão desde os internos -colaboradores – aos externos – a comunidade, os fornecedores e todos aqueles que interferem direta ou indiretamente com a realidade da empresa.

 

 

Mas para isso é preciso implementar uma cultura, que se relaciona diretamente com a ética empresarial, e que foque precisamente os conceitos de sustentabilidade e criatividade, sem esquecer a inovação.

Por isto, a empresa, deve repensar, a vários níveis, as suas relações com a envolvente. Deve garantir não só a sua própria sustentabilidade, mas também a da envolve, através da inovação constate que pode ser incentivada pelos avanços científico-tecnológicos que diariamente ganham destaque. E também, ouvindo as pessoas, porque é com e para elas pessoas que a empresa se mantém.

Abaixo deixo um vídeo que clarifica precisamente, a importância e intenção da Responsabilidade Social na vida da empresa e na vida da própria sociedade.

As ideias da “Ideia de Europa”

Com base em cinco axiomas, George Steiner formula “A Ideia de Europa”: os cafés, as paisagens, as ruas e praças, a descendência de Atenas e de Jerusalém (simultâneamente) e os fundamentos do Cristianismo.

Steiner confere extrema importância à matemática, ao pensamento e à música para a evolução das sociedades, em especial, da Europa, que nestes domínios se tem distinguido. Apesar do papel secundário, a cultura pode e deve ser entendida como uma expressão de união perante a diversidade europeia.

Cada vez mais precisamos de modificar comportamentos para podermos viver em sociedade, porque hoje, uma sociedade pode ser maioritariamente caucasiana, mas não o é inteiramente, pelo que temos que adaptar os nossos hábitos, sistemas políticos, culturas e sistemas económicos, dada a globalização hoje inerente ao conceito de sociedade – “Aldeia Global”.

Mas retornando aos axiomas, Steiner revela que os cafés, tiveram um papel fulcral para o desenvolvimento da cultura europeia. Nos cafés estavam os pensadores, os cultos, os literados. Segundo o autor, qualquer pessoa sabia em que café procurar quando pretendia encontrar alguém. O café não era apenas um local para descontrair, era muito mais do que um local de socialização como é hoje. No entanto todos serviam os mesmos propósitos, mas eram completamente distintos.

O que revolucionou a Europa, e o que a moldou ao que é hoje, foi a paisagem. Segundo Steiner, quer isto dizer que foram construídos caminhos pela Europa, que dificilmente seriam construídos nos outros continentes. Na Europa não existem barreiras intransponíveis. Desertos, Savanas, não constituem a paisagem europeia, por isso, o conhecimento foi transmitido, pé ante pé pelas ruas da Europa. Este é um conceito que vem já da Antiga Grécia.

Em cada canto europeu, existe uma peça do puzzle que constitui a sua História. Qualquer rua, qualquer praça, tem um nome. De quem? De alguém que marcou a história.

Como apresenta no seu quarto axioma, George Steiner, acredita, que tal como a influência do ensinamento “de pólis em pólis, a Europa foi profundamente influenciada por Atenas, e, também por Jerusalém.

 

Foi em Atenas que surgiram a música, a matemática e o pensamento. E explorando as áreas do conhecimento, conseguimos entender a irelevância destes domínios: a música é universal, pois, segundo vários estudos e como o próprio autor refere, a música faz parte de qualquer forma de civilização. A Índia e o Islão avançaram muito no campo da matemática, mas quase que inevitavelmente, foi a Europa a demonstrá-la e a transferir os seus conhecimentos à América do Norte. É em Sócrates que revemos  o início do formular do pensamento, da metafísica

Já em Jerusalém, foi cimentado o Cristianismo, e com ele, os fundamentos morais. O conceito de “justiça social”, o Socialismo Utópico. No fundo, o que é hoje a Europa, foi altamente influenciado pelas heranças de Atenas e Jerusalém.

A herança que proveio Jerusalém, influencia bastante o que o autor considera como sendo seu quinto axioma: Escatologia – estudo e reflexão ligados ao cristianismo, tipicamente europeu.

Entre os cinco axiomas apresentados há um aspeto que os interliga: a reflexão, o pensamento.

No penúltimo parágrafo da obra de Steiner, o autor escreve que “a vida não refletida não é efetivamente digna de ser vivida”. Estou em crer que o autor o afirma, pois para existir História, foi necessário que existisse pensamento.

Esta base de pensamento “entre os filhos (…) de Atenas e de Jerusalém” tornou, e torna hoje possível continuar a fazer história, deixando de discuti-la em cafés, mas online, dando nomes aos novos widgets, percorrendo o mundo de avião e/ou barco, não esquecendo de que somos fruto de Atenas e Jerusalém, e sem nos esquecer
mos da mítica afirmação: “Penso, logo existo.”.

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Thumbelina: quem e como são os novos públicos?

Como referido no último post existem vários meios de comunicação. Com o boom da Internet os processos de comunicação foram inteiramente renovados. As distâncias encurtaram, o tempo desvaneceu-se e tudo passou a resumir-se a um clique. Um clique que liga as pessoas ao mundo e o mundo às pessoas.

A Internet veio alterar várias componentes do quotidiano como por exemplo o jornalismo. Cada vez menos existem jornais impressos, a cada minuto que passa, existem milhares de Gigabytes de informação a serem publicados online, por jornalistas, ou na maior parte das vezes por cidadãos comuns.

Assim, emergiram novos públicos. Públicos que querem informação ao minuto. Já ninguém espera 24 horas por uma notícia (no caso dos jornais diários). Após  qualquer acontecimento, as informações são publicadas 5 minutos depois, ou são mesmo acompanhadas em direto na Internet.

O mesmo acontece com as empresas e organizações.

A relação entre as empresas/organizações e os seus públicos evoluiu e é hoje muito diferente. Nenhum cliente e/ou consumidor, espera com contentamento, 10 minutos após expor as suas questões, a comunicação tem de ser ao minuto e personalizada.

A comunicação ocorre hoje em dia, 24 horas, 7 dias por semana, 365 dias por ano.


Michel Serres dá-nos o exemplo do ensino, assumindo que os media, têm agora a função de ensinar. As crianças têm hoje em dia, um acesso reestruturado à informação, e muitas vezes acabam por viver no mundo virtual.

Mas isso traz repercussões a nível dos estímulos da aprendizagem, e da linguagem. O autor considera ainda que cada vez mais as pessoas são seres individuais isolados, apesar da ligação ilimitada que têm ao mundo.

Recuperando a ideia da remodelação do ensino, Serres dá-nos um ponto de vista que nos alerta para o livre acesso à informação e ao conhecimento. Hoje em dia, a qualquer altura em qualquer lugar podemos ler qualquer livro sem termos que nos deslocar, e sem termos que recorrer a mais do que um smartphone. Isto implica uma alteração radical nos públicos dos quais fazem parte os alunos.

A página é um suporte sem o qual não conseguimos evoluir, no entanto, o ecrã de um tablet, smartphone ou computador, reproduz essa mesma página, pelo que, assumindo esta ideia de Michel Serres, agora é possível evoluir sem a página física de um livro ou documento, é possível ensinar e aprender sem estar numa sala de aula.

O turismo é outro exemplo do autor com o qual nos mostra a alteração social com a emergência da Internet.

As viagens tinham sobretudo o intuito de proporcionar o conhecimento de um lugar novo, de uma nova cultura, de um novo idioma. Hoje, qualquer público, com a cultura de viajar ou não, pode facilmente aceder a esse novo lugar sem sair de casa: aprender um novo idioma sem recorrer à escola e ao ensino tradicional, experimentar novas culturas sem se levantar do sofá.

Porquê? Como? Está na Internet. É possível conhecermos pessoas que vivem no outro lado do mundo através do nosso telemóvel. Aprendemos idiomas sem que alguém nos ensine, basta um computador. Conhecemos outras culturas procurando o que está online.

No entanto, essa facilidade de comunicação traz uma contrapartida. Tal como refere Serres, quando antes não saíamos de casa para evitar falar com alguém hoje, é quase impossível, porque esse alguém pode estar onde nós estivermos através do nosso smartphone.

O autor, mostra-nos também que o trabalho foi subitamente alterado. Na indústria especialmente, as pessoas foram substituídas por máquinas. Porquê? Porque as pessoas são falíveis, as máquinas são programadas, e podem ser reprogramadas caso haja um erro. Já as pessoas, podemos ensiná-las, mas nada nos garante que aprenderão e que irão mudar os seus hábitos de trabalho.

O mundo mudou, a sociedade mudou, e com eles mudaram as pessoas, os públicos.

Aqueles que nunca falaram, podem agora falar, não só para alguns, mas para o mundo inteiro.

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Comunicar é…

Comunicar foi o que estive a fazer enquanto escrevia este post, e é aquilo que está a fazer neste momento em que lê o que eu lhe quero comunicar.
A comunicação pode ou não implicar feedback e não deixamos de comunicar mesmo que não o tenhamos.

Como podemos comunicar se ninguém nos responde?

Desde sempre que foram estabelecidas normas de comunicação entre os humanos, com palavras como conhecemos hoje, com idiomas ou dialetos diferentes dos nossos, mas sempre existiu comunicação. Mesmo quando não existiam palavras determinadas para a comunicação, utilizavam-se sinais. Nos primórdios, quando ainda não existiam telégrafos, cartas, e muito menos Internet, era possível comunicar à distância, através de sinais de fumo por exemplo. Toda essa comunicação era regulada, todos sabiam que determinados sinais e/ou sons significavam uma mensagem.

No entanto, podiam e podem sempre existir falhas, “ruído”, na comunicação que estabelecemos. No livro “Metadiálogos” de Gregory Bateson temos a confirmação disso.

Nem sempre as palavras que usamos querem significar o mesmo que terceiros ouvem e pensam que significam, isto é, pegando no exemplo do autor, as palavras “arrumado” e “desarrumado” que possamos utilizar podem, muitas vezes, não corresponder ao significado que os outros lhe conferem.

Segundo Bateson, para um indivíduo, estar desarrumado, significa que o objeto não está onde o deixou, no entanto, qualquer pessoa que o veja no sítio onde se encontra, poderá assumir que está arrumado.  Basta que outra pessoa “arrume” os objetos noutros locais que o indivíduo não considere que não sejam os adequados para que, para ele, signifique que está desarrumado.

À partida, a comunicação não pode ser delimitada pela linguagem verbal. Muitas vezes, sem verbalizarmos/escrevermos algo estamos a comunicar. Bom arrisco-me a afirmar que na maior parte das vezes é assim. Mesmo quando não temos intenção de comunicar, estamos a comunicar.

E estamos a comunicar o quê?!

A linguagem não verbal tem um papel, por vezes fundamental, na comunicação. Através delas podemos demonstrar a nossa posição sobre um assunto. As nossas expressões faciais por exemplo, demonstram interesse ou não sobre o que se conversa.

Em muitas circunstâncias não necessitamos de verbalizar que estamos “zangados” como no exemplo do texto de Gregory Bateson. Isto porque, se a nossa expressão for sorridente, à partida, estamos a informar quem se cruza connosco, intencionalmente ou não, que não estamos zangados com nada ou com alguém que nos interpele, seja essa informação verídica ou não.

Nem sempre o que comunicamos é o que realmente queremos comunicar, pois, sendo a comunicação vital para a vida em sociedade é necessário controlar alguns dos nossos sentimentos e pensamentos.

Especialmente em diálogos banais, troca de informações, a comunicação é previsível.

Isto é, se eu me dirigir a alguém e disser “Bom dia”, eu prevejo que a pessoa me responda “Bom dia” e assim posso estabelecer um diálogo com ela para troca de informações.
Se pelo contrário, a pessoa não me responder “bom dia”, eu percebo que a pessoa não pretende falar comigo e atuo em conformidade com essa informação.
Mas ainda mais, se essa pessoa me responder “bom dia”, mas se através da sua linguagem não verbal, perceber que a pessoa não tem intenção de continuar um diálogo comigo, eu posso novamente atuar de acordo com a mesma informação.

No seu livro, o autor dá-nos a perspectiva dos animais: como não podem comunicar através de palavras, eles prevêem os comportamentos,  dos animais à sua volta incluindo os humanos, ou seja seguem os seus instintos, o que os torna, de uma forma ou de outra, aos nossos olhos, imprevisíveis. Mas por mais imprevisíveis que sejam, eles estão a comunicar connosco, quanto mais não seja a dizer-nos o quão imprevisíveis são.

As metáforas, de acordo com Bateson são outra forma de comunicar, e nunca significam aquilo que na verdade dizem, a não ser que sejam “rotuladas” como tal. Mas, como desde sempre, existem regras para as utilizar diretamente relacionadas com o contexto. Por exemplo, em Portugal, um “alfacinha” é uma pessoa que nasceu em Lisboa. Se em Itália, dissermos que alguém é “alfacinha”, a pessoa que nos ouvir, vai ficar confusa, gerando ruído na comunicação.images

A comunicação através de imagens também é possível, e o autor dá-nos o exemplo dos sonhos. Mais uma vez, é gerado ruído na comunicação por não existir uma imagem que expresse a palavra “não”, o que torna a comunicação menos clara.

Por isso, tudo é comunicação, tudo o que fazemos é comunicar!

Podemos comunicar por meios distintos, e não sendo presencialmente, recorrendo à Internet por exemplo,
ainda existem mais ruídos, contudo, esse é um assunto a abordar na próxima semana… Até lá!

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